
Aposto que já poucos se lembram quando, há cerca de um ano atrás, se começou a falar em Barack Obama, e quase ninguém conseguia dizer o nome, e, aliás, até se falava da semelhança fonética com o nome de Osama Bin Laden. Ora um ano passado o cenário não podia ser mais diferente. Hoje só os distraídos não reconhecem o nome do candidato democrata à presidência da super-potência mundial, e Obama foi carinhosamente acolhido no regaço da imprensa europeia.
Num exercício de simplificação, causado pela paixão fogosa por Obama (e como todas as paixões, pouco racionais), a imprensa europeia passou a tratar o candidato como se uma espécie de mente renascentista se tratasse, como se o Senador do Congresso dos EUA viesse trazer todo um mundo novo à condução da política externa norte-americana, uma espécie de toque de Midas da paz e do progresso sociais e da bem aventurança entre todos os Homens deste planeta.
O clímax desta paixão aconteceu recentemente quando o Senador fez um périplo por algumas capitais europeias. Em Berlim, a imprensa comparou o discurso de Obama com a passagem do Presidente John Kennedy por lá em 1963, quando proferiu o célebre discurso do "ich bin ein Berliner" (eu sou berlinense). Nada mais disparatado, e por várias razões. Primeiro, Obama é um candidato à Presidência dos EUA, depois, de modo algum, se pode comparar a situação de Berlim, e do mundo, com a vivida em 1963. JFK foi a Berlim, porque pouco antes a URSS tinha construído o Muro, separando a parte democrática de Berlim do resto da cidade, em mãos soviéticas. Vivia-se uma confrontação entre a democracia e a liberdade e um sistema autocrático, totalitário e que abolia toda e qualquer liberdade pessoal. Parece-me a mim que comparar uma situação desta gravidade, com uma acção de campanha eleitoral, numa Europa livre, é, no mínimo rídiculo... Até porque, a grande quantidade de pessoas que lá estavam a assistir pareciam estar à espera da actuação de uma estrela de rock.
Nada me move contra ou a favor de Obama ou John McCain. O que eu digo é muito simples: a imprensa, a nossa imprensa e a europeia, não me dá dados suficientes para eu formar a minha própria opinião sobre os candidatos às eleições dos EUA. Não desejo nenhuma análise de ciência política, exijo informação clara e objectiva, sem o olhar enviesado que a imprensa tem dado, pendendo a balança completamente a favor de Obama. Tudo o que Obama faz, diz, ou pensa, parece inquestionável e é-nos servido como se fosse a mensagem de um profeta iluminado. E, para além disto, Obama detém um enorme tempo de antena quando comparado com McCain.
Deixem-se de exercícios simplistas e redutores e de embarcar em quimeras sobre Obama, e apresentem-nos os dados, para que possamos formar um opinião fundamentada. Dentro do possível como é óbvio. Nenhum português em geral quer, como referi em cima, um análise exaustiva sobre os candidatos, apenas informação não tendenciosa. Como exemplo, teria sido interessante algum jornalista ter averiguado sobre aquela multidão que foi ouvir Obama em Berlim. Eram americanos residentes na Alemanha? Eram alemães? Se eram alemães porque estavam lá? Estavam lá de livre iniciativa? Ou foram incentivados de algum modo?
E, agora, e isto já sou eu a opinar, vamos deixar-nos de sonhos e acordar para a realidade! Se Obama for eleito Presidente dos Estados Unidos da América, alguém acha que a política externa americana vai mudar radicalmente? Em relação ao Iraque, por exemplo, Obama vai tirar uma varinha de condão do chapéu e resolver de uma penada o problema iraquiano? Não me parece. Aliás, no geral não vejo que a política externa seja tão má como se quer fazer pensar, mas isso é tema para outro post no futuro. O que eu penso é que, seja quem for o candidato eleito, a política externa americana não vai mudar no conteúdo, talvez na forma. Da mesma maneira que se Kerry tivesse sido eleito em 2004 não teria havido mudanças significativas.