30 de outubro de 2008

O fenómeno Obama - II

Há algum tempo atrás referi aqui que as análises da imprensa portuguesa em relação aos candidatos à presidência dos EUA pecavam por redutoras e simplistas. De então para cá houve uma melhoria, até pelo maior espaço dedicado às eleições nos vários media, mas podia o trabalho jornalístico ter sido bem melhor. Ainda assim, e porque não tenho tempo para estar ligado 24h por dia à CNN ou outras, considero-me mais esclarecido do que quando escrevi o primeiro post sobre este tema. Realço até um programa de inusitada qualidade, o 60 Minutos, que passa na SIC Notícias (60 Minutes, da CBS) e que fez em menos de uma hora uma interessante viagem à vida dos candidatos e lhes dirigiu perguntas verdadeiramente interessantes na perspectiva do eleitorado.

Resumo as minhas impressões, destes meses de alguma atenção às eleições americanas.
Barack Obama:
excelente orador, tem carisma, consegue prender a atenção como ninguém, tem slogans com que todos concordamos.

John McCain:
ponderado, credível, inspira confiança, demonstra conhecimento dos dossiers e parece bastante mais realista que Obama.

De acordo com as sondagens Obama está com uma vantagem muito confortável e deverá sair vencedor das eleições. Se Obama se tornar Presidente dos Estados Unidos da América resta saber se concretizará a esperança de mudança que ele e todos os seus apoiantes prometem com veemência. Aliás, daqui a 4 anos, no fim do primeiro mandato, lembremo-nos bem do clima de euforia que rodeia a candidatura de Obama, da expectativa quase messiânica com que é anunciada. Não nos tenhamos memória apenas para o que nos convém.
(imagem retirada de www.agoravox.com)

24 de outubro de 2008

O carteiro

Já pensaram que o carteiro conhece virtualmente tudo acerca da nossa vida?
Sabe em qua bancos temos contas, a que livraria, virtual ou real, compramos os livros, em que universidade estudamos (ou estudámos), para onde vão de férias os nossos familiares e amigos, que revistas e jornais lemos, o partido a que pertencemos, o clube de que somos sócios, a seguradora de que somos clientes, eventualmente, poderá ter pistas acerca da nossa profissão...

Enfim, se fosse noutros tempos o carteiro poderia ser perigosíssimo!


(imagem retirada de http://www.imaginations.org.uk/)



18 de outubro de 2008

Os deslumbrados

Já aqui uma vez fiz referência a um texto de José Pacheco Pereira publicado na Revista Sábado e no seu blog, o Abrupto. Hoje volto a fazê-lo, e coloco o link em baixo, porque me parece mais um daqueles alertas que julgo impossível deixar passar, e sobre o qual todos devemos reflectir.
Pacheco Pereira com a argúcia de pensamento, e solidez de conhecimentos, que lhe são conhecidas vem chamar a atenção para os deslumbrados da tecnologia, como o nosso Primeiro-Ministro, e muitos outros que aderiram à moda sem pensarem um pouco. Veja-se o caso do Magalhães. Crianças da escola primária, ou 1.º ciclo, terão direito a um pequeno computador portátil. Não será um por sala, será um para todas as crianças. Ora, e pergunto-me, mas então uma criança que aos 6 anos de idade vai para a 1.ª classe para aprender a ler e a escrever precisa de um computador portátil para quê? E mesmo as outras que frequentam a 2.ª ou 4.ª classe terão uma enorme necessidade de um computador portátil? Eu creio que claramente se está a pôr "o carro à frente dos bois", que tudo isto não passa de uma manobra propagandística do Governo, que colhe o aplauso dos fascinados pelo mundo onde a tecnologia deve ser omnipresente. Não estou com isto a negar a importância, o acrescento positivo que a tecnologia pode trazer ao ensino, mas corre-se um risco muito grande ao não se ensinar bem aquilo que é básico, para se passar logo aos gadgets e à utilização massiva da informática. É como construir uma casa pelo telhado.
Uma coisa era os meninos terem um computador na sua sala, cuja utilização o professor controlaria muito mais eficazmente e só introduziria esse elemento quando fosse mais adequado, outra coisa é os miúdos todos terem o computador à frente nas suas mesas. É como Pacheco Pereira diz, é no computador que vão aprender a escrever? Onde está o contacto físico com um papel, os lápis, o rabiscar? Não é necessário isto, caros deslumbrados tecnológicos? Eu digo é! E, quanto mim, e não descartando a existência de quadros interactivos, ou computadores presentes na sala de aula, a boa formação escolar será aquela que permite aos jovens ter sólidos conhecimentos de base, bem ancorados, para depois sim, saberem fazer uso da tecnologia, mas não começar com a tecnologia e deixar o básico, com a falsa crença de com o domínio da tecnologia vem o resto. Há dias vi algo que me deixou perplexo. Vi escrito num blog que o que interessava era que os jovens soubessem fazer uma boa pesquisa na internet, nos motores de busca, para fazerem um trabalho sobre um assunto qualquer. E fiquei perplexo porque pensei, pois muito bem, sabem fazer a pesquisa, encontram "n" informações sobre esse assunto, mas se não têm conhecimentos sólidos sobre as coisas, como é que vão ter capacidade crítica e de descernimento para avaliar a qualidade e a credibilidade da informação que têm à frente? É que, convenhamos, não podemos acreditar em tudo o que nos aparece na rede, até porque qualquer um de nós pode colocar qualquer tipo de informação a circular.
Não vejam nas minhas palavras uma rejeição da tecnologia, bem pelo contrário, acho que devemos é usá-la bem, para nos ajudar a um verdadeiro progresso civilizacional (com todas as suas componentes), e não sermos dominados por ela e tornarmo-nos reféns da mesma.
Mas leiam com a eloquência habitual as palavras brilhantes de José Pacheco Pereira:
http://abrupto.blogspot.com/2008/10/coisas-da-sbado-retratos-de-um-sonho.html
(imagem retirada de www.masternewmedia.org)

13 de outubro de 2008

"Sebastião come tudo, tudo, tudo" - II

O Governo da República Portuguesa, anunciou nos últimos meses mais uma série de investimentos com cifras astronómicas para o distrito de Lisboa: 2,1 mil milhões (sim) de euros para alguns municípios da chamada zona do Oeste e 348,4 milhões de euros para a cidade de Lisboa propriamente dita. E não, nem estou a falar do TGV.
No primeiro caso diz o Governo que se trata da compensação por o novo (e duvidoso) aeroporto de Lisboa não ir para a Ota. No segundo caso trata-se de mais um investimento massivo na cidade de Lisboa, que não carece de qualquer justificação: a Nova Alcântara, como o Governo lhe chamou. Neste caso há de tudo um pouco: enterramento dos quilómetros finais da linha de Cascais e várias obras no Porto de Lisboa.
Enquanto se anunciam milhões a perder de vista no distrito de Lisboa, no longíquo, medieval, e qui ça, onde ainda as pessoas se fazem transportar em jumentos, distrito de Braga, onde (sobre)vivem 800 mil almas (o dobro do que no distrito de Coimbra, por exemplo), há um Hospital Central no mesmo local há 500 anos, à espera de ser substituído há mais de 20 anos depois de incontáveis promessas, há a maior taxa de desemprego do país, há uma das menores fatias nacionais do "bolo" comunitário 2007-20013, há uma das maiores taxas de exportação de produção industrial do país, há uma linha férrea mal modernizada com dois "pontos negros" que fazem uma viagem de 53km demorar 1h10m, e outros exemplos poderiam ser dados. Isto acontece no distrito de Braga, que elege 18 Deputados à Assembleia da República (Leiria elege 10, por exemplo).

Desçamos um pouco a Sul, e encontremos essa também longíqua cidade do Porto. Ora, para os 2 milhões de almas que vivem na área metropolitana do Porto, o Governo da República Portuguesa diz que não há muito dinheiro para gastar no Metro do Porto. E isto, veja-se, quando o Metro do Porto é incomparavelmente mais barato que o Metro de Lisboa. No Porto 500 milhões de euros servem para fazer 40km de rede, em Lisboa, aproximadamente esse valor, serve para fazer 2,5km de linha entre a Baixa-Chiado e Santa Apolónia, e após 10 anos de obras. Em menos tempo o Metro do Porto conseguiu 60km de rede, 70 estações, e acima de tudo, mudar radicalmente a vida de muita gente.

Está fora de causa que Lisboa, enquanto capital do país, e paradeiro de muitas almas, tem uma proeminência natural. O que, para mim, é inconcebível, é que se continue a olhar para o resto do país como "paisagem", o que acaba por arrastar mais e mais pessoas para a área metropolitana de Lisboa, onde têm uma qualidade de vida muito questionável (horas passadas no trânsito, subúrbios inenarráveis, insegurança), e que nos núcleos populacionais de dimensão razoável, como Braga, o Governo acene com patacas, e que numa grande cidade, como o Porto, tudo seja conseguido a ferro e fogo em termos de investimento central.
Há muitos países onde a cidade mais importante em termos económicos nem é a capital do país. No entanto, nem defendo isso para Portugal. Defendo um desenvolvimento harmonioso, equilibrado, onde as pessoas não sejam desenraizadas, onde se promova uma competição saudável entre dois grandes pólos urbanos nacionais: o Porto e Lisboa, onde não se deixe metade do país no mais completo e total abandono. Experimentem ir por exemplo, uns dias ao distrito de Portalegre. Vejam o estado de abandono, de esquecimento, de tristeza em que se encontra aquela região. E de Norte a Sul do país o interior está assim.

Para quando um Portugal equilibrado, coeso, justo, solidário e com qualidade de vida para todos?

Links vários sobre os investimentos que referi em cima:
(imagem retirada de wehavekaosinthegarden.blogspot.com)