
No debate do "Prós e Contras" que referi no post anterior, Carlos Reis, Reitor da Universidade Aberta, e defensor acérrimo do Acordo Ortográfico (Acordo), virou-se para Vasco Graça Moura e a professora universitária que partilhava a mesa com o poeta e tradutor, cujo nome não me lembro, mas com uma vivacidade marcante, e disse-lhes que os dois eram contra o Acordo por razões de nacionalismo serôdio. Ora eu acho que o Prof. Carlos Reis sofre exactamente do contrário, que é um certo complexo de inferioridade português, e que para ultrapassá-lo é preciso ir com outros "a jogo".
Com este Acordo, quanto a mim, que não sou especialista, mas apenas um utilizador da língua(sempre tentando tratá-la bem), o que vai acontecer internacionalmente é que o Português vai deixar de ter duas normas reconhecidas internacionalmente, a portuguesa e a brasileira, para passar a ter apenas uma, que acabará por ser a brasileira.
Bem sei que o objectivo declarado do Acordo não é unificar as duas normas, mas reduzir as diferenças na grafia. Mas aquilo que ouço dos defensores do Acordo é que com ele se vai facilitar a publicação de livros nos dois países sem necessidade de revisão, e se vai também facilitar as questões de tradução em organismos internacionais como a ONU.
Ora, parece-me que daqui resulta claro que vai ser assumido internacionalmente que o Português padrão terá uma norma apenas, e que essa norma será a brasileira. Aqui os muitos mais milhões de brasileiros farão toda a diferença em relação aos poucos 15 milhões de portugueses (já contando com emigrantes).
Veja-se um exemplo muito simples. Um tradutor brasileiro é admitido na ONU, ou mesmo no Parlamento Europeu, na Comissão Europeia, na NATO, no Conselho da Europa, ou na OCDE, por exemplo. É-lhe perguntado se ele vai traduzir o Português para a norma brasileira ou norma portuguesa, ele vai simplesmente dizer que vai traduzir para o Português padrão já que com o acordo, pelo menos na perspectiva dos brasileiros, deixam de haver normas diferentes porque as palavras que nós escrevíamos de modo diferente da dos brasileiros, passamos a escrevê-las do mesmo modo. É isto que qualquer brasileiro vai assumir, que deixou de haver uma norma brasileira e outra portuguesa, ainda que esse não seja o objectivo do Acordo. E o mesmo se vai passar com um estrangeiro que vá aprender Português no seu país com um professor brasileiro.
Bem sabemos que na norma do Português brasileiro, as diferenças gramaticais e semânticas são muito grandes em relação à norma do Português de Portugal, muito maiores que quaisquer diferenças gráficas.
O que irá acontecer quanto a mim, é que este Acordo irá abrir as portas de modo inexorável, ao definhamento e morte do Português que nós falamos, e acho que defender o modo como nós escrevemos e falamos Português não é ter um nacionalismo serôdio, até porque, e digo-o sem qualquer problema e sem qualquer pretensão hegemónica, foi aqui, no nosso pequeno "rectângulo" que nasceu a Língua Portuguesa. Por isso, como aludia Vasco Graça Moura, não me vou conformar com a lei do mais forte. Só porque o Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes e é uma das potências emergentes a nível mundial isso não significa que tenhamos que nos render e passar todos a falar como se fala no Brasil. Dizer o contrário, dizer que a defesa pela preservação da língua tal como nós a falamos é nacionalismo serôdio é precisamente sofrer daquele complexo de inferioridade que referi em cima. Temos todos os pergaminhos e mais alguns, não para impor aos outros países a nossa maneira de falar Português, mas para defender e estimular a nossa maneira de falar Português.
E ao defender convictamente o nosso modo de falar Português, não estou a defender que nos isolemos, que deixemos de interagir com os outros Países de Língua Oficial Portuguesa, agora não aceito que outro país, na prossecução dos seus legítimos interesses político-económicos na cena mundial, venha impor a dele, e que nós aceitemos só por sermos um pequeno país na cauda da Europa de tudo quanto é indicador. Se os nossos antepassados dos últimos 800 anos pensassem assim, não estaríamos aqui hoje a falar de um país com 800 anos de História e que contribuiu para mudar o mundo.
Voltando ao Acordo. Não vejo também, porque será assim tão necessário adaptar o modo de escrever ao modo de falar. Haverá alguma dificuldade em se aprender a escrever "baptismo", "excepção", "acto", "peremptório", etc, etc? Não me parece. Parece-me isso sim, que será mais um empobrecimento da língua, e que constituirá uma dificuldade acrescida para se aprenderem línguas estrangeiras, já que ao escrevermos como falamos, vamos-nos cada vez mais afastando da etimologia da palavra, e assim, de outras palavras com a mesma origem etimológica noutras línguas. Como por exemplo com a palavra "baptism" em inglês, e muitas outras.
Outra razão importante ainda, e pegando de novo no ponto de que com este Acordo estamos a caminhar para a supremacia da norma brasileira do Português, o Português falado no Brasil, é demasiado poroso em relação a outras línguas, especialmente o inglês que se fala nos E.U.A.. Os brasileiros adaptam directamente uma miríade de palavras com uma facilidade impressionante, como se pode comprovar facilmente através das telenovelas ou dos programas informáticos traduzidos para Português do Brasil, contribuindo assim para uma grande descaracterização e perda de originalidade da Língua Portuguesa.
Em suma, não vejo qualquer razão para Portugal defender e perseguir este Acordo. Não vejo qualquer boa razão a nível económico para ele no que diz respeito à nossa presença no mundo, para o Brasil sim, para nós não. E o mesmo em termos culturais.
É um mau acordo e espero que os portugueses não embarquem em modas e falsos modernismos, e façam desta nova aparição do Acordo aquilo que fizeram com a primeira: ignorá-lo com a prática da vida diária.
3 comentários:
Imaginem que, um belo dia, os britânicos acordavam e decidiam adoptar o padrão norte-americano...
o problema coloca-se de outra forma... é bom para a lingua portuguesa um acordo, porém quem deveria recolocar as consuantes mudas deveriam ser os brasileiros e nao nós as tira-las, pq todas as palavras que vamos extrair as consuantes mudas continuam a existir em várias outras línguas (sao N nao precisa mtos exemplos, do baptismo, actual, etc que continuam em frances ou ingles etc.... O brasil por complexo colonial quis se distanciar de Portugal e isso só prejudicou a língua, por mania de ser diferente sem ser um processo natural a diferença e pq não quiseram primeiro acordar antes de mudarem as regras... ngm ganhou com isso, nem Brasil nem Portugal, ser maioria num país não tem a mesma força que o facto de ser falado em vários paises... porém agora não há nada mais a fazer, para força da LP
esqueci...
não concordo que a língua portuguesa seja apenas nossa dos portugueses, ela é de quem a fala por igual...porém cada qual faz dela o que quiser... mas diferencia-la nao beneficia ninguém...
Enviar um comentário