15 de setembro de 2008

"Acto" ou "Ato" - III




Recentemente li um livro que reunia as crónicas de Vasco Graça Moura sobre o famigerado acordo ortográfico, e fiquei ainda com mais certezas sobre este erro clamoroso que estamos a cometer.

Chamo a atenção para três pontos:

1. a questão das facultatividades;

2. as graves consequências para as editoras portuguesas;

3. só o Brasil ganha com este acordo.


1. Facultatividades


As facultatividades são um expediente previsto pelo acordo para casos de dúvida na escrita das palavras. O problema é que não há qualquer critério para decidir, cada um decide como entende! Está bom de ver a enorme confusão que isto vai trazer para a escrita da língua, mesmo dentro de uma mesma comunidade linguística/país. Como exemplo do ridículo transcrevo um excerto do acordo, para verem no que é que isto vai dar: "Levam acento agudo ou acento circunflexo as palavras proparoxítonas, reais ou aparentes, cujas vogais tónicas/tônicas "e" ou "o" estão em final de sílaba e são seguidas das consoantes nasais "m" ou "n" , conforme o seu timbre é, respectivamente, aberto ou fechado nas pronúncias cultas da língua: académico/acadêmico, anatómico/anatômico, cénico/cênico, cómodo/cômodo, fenómeno/fenômeno, género/gênero, topónimo/topônimo, Amazónia/Amazônia, António/Antônio,(...)".

Depois há o aspecto da abolição "c" e "p" mudos, mas que, de acordo com vários linguistas, têm uma importante função de revelar ao falante da língua como se pronúncia a palavra, e são testemunho da etimologia da mesma. Este último aspecto não é importante só por uma questão histórica mas por nos aproximar das outras línguas românicas e do inglês, pois muitas das suas palvras derivam do latim ou línguas românicas, o que torna a sua aprendizagem mais fácil.


2. Editoras portuguesas


Os países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP), seguem a norma portuguesa da língua, e a edição portuguesa tem aqui um importante mercado, onde já se encontra fortemente implantada. Ora como a maioria das mudanças, se o acordo for avante, se vai fazer no sentido de beneficiar a grafia brasileira da língua, as editoras deste país terão caminho aberto para entrar em África pois não precisam de efectuar nenhuma mudança nos seus manuais de ensino ou livros, ao contrário das nossas editoras, que poderão perder o mercado e gastar enormes quantias para actualização dos catálogos.


3. Brasil


O acordo foi lançado em 1986 pelo então Presidente Sarney do Brasil, e visava, como ainda visa hoje, fins económicos claros, como ficou visto acima. Não há mal nenhum que o Brasil olhe pela sua vida, o mal está em não sabermos olhar pela nossa, e adoptarmos uma postura marcada por um complexo de inferioridade ou pós-colonial. De resto como se pode assegurar a unidade da língua, como defendem os apoiantes do acordo, com casos como o que relatei no ponto 1?

Depois, dizem ainda os defensores do acordo, que se não cumprirmos este acordo, a norma portuguesa da língua está condenada, mas, e como muito bem diz Vasco Graça Moura, o acordo existe desde 1991 e ninguém em Portugal e em África o cumpriu, está a nossa maneira de falar e escrever moribunda por isso? Obviamente que não!


Todos estes pontos foram abordados de uma forma muito genérica (e pouco científica pois estou longe de ser linguista,) por isso se quiserem mais informação deixo-vos os dados do livro: "Acordo Ortográfico: a perspectiva do desastre" de Vasco Graça Moura, Alêtheia Editores

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