13 de outubro de 2008

"Sebastião come tudo, tudo, tudo" - II

O Governo da República Portuguesa, anunciou nos últimos meses mais uma série de investimentos com cifras astronómicas para o distrito de Lisboa: 2,1 mil milhões (sim) de euros para alguns municípios da chamada zona do Oeste e 348,4 milhões de euros para a cidade de Lisboa propriamente dita. E não, nem estou a falar do TGV.
No primeiro caso diz o Governo que se trata da compensação por o novo (e duvidoso) aeroporto de Lisboa não ir para a Ota. No segundo caso trata-se de mais um investimento massivo na cidade de Lisboa, que não carece de qualquer justificação: a Nova Alcântara, como o Governo lhe chamou. Neste caso há de tudo um pouco: enterramento dos quilómetros finais da linha de Cascais e várias obras no Porto de Lisboa.
Enquanto se anunciam milhões a perder de vista no distrito de Lisboa, no longíquo, medieval, e qui ça, onde ainda as pessoas se fazem transportar em jumentos, distrito de Braga, onde (sobre)vivem 800 mil almas (o dobro do que no distrito de Coimbra, por exemplo), há um Hospital Central no mesmo local há 500 anos, à espera de ser substituído há mais de 20 anos depois de incontáveis promessas, há a maior taxa de desemprego do país, há uma das menores fatias nacionais do "bolo" comunitário 2007-20013, há uma das maiores taxas de exportação de produção industrial do país, há uma linha férrea mal modernizada com dois "pontos negros" que fazem uma viagem de 53km demorar 1h10m, e outros exemplos poderiam ser dados. Isto acontece no distrito de Braga, que elege 18 Deputados à Assembleia da República (Leiria elege 10, por exemplo).

Desçamos um pouco a Sul, e encontremos essa também longíqua cidade do Porto. Ora, para os 2 milhões de almas que vivem na área metropolitana do Porto, o Governo da República Portuguesa diz que não há muito dinheiro para gastar no Metro do Porto. E isto, veja-se, quando o Metro do Porto é incomparavelmente mais barato que o Metro de Lisboa. No Porto 500 milhões de euros servem para fazer 40km de rede, em Lisboa, aproximadamente esse valor, serve para fazer 2,5km de linha entre a Baixa-Chiado e Santa Apolónia, e após 10 anos de obras. Em menos tempo o Metro do Porto conseguiu 60km de rede, 70 estações, e acima de tudo, mudar radicalmente a vida de muita gente.

Está fora de causa que Lisboa, enquanto capital do país, e paradeiro de muitas almas, tem uma proeminência natural. O que, para mim, é inconcebível, é que se continue a olhar para o resto do país como "paisagem", o que acaba por arrastar mais e mais pessoas para a área metropolitana de Lisboa, onde têm uma qualidade de vida muito questionável (horas passadas no trânsito, subúrbios inenarráveis, insegurança), e que nos núcleos populacionais de dimensão razoável, como Braga, o Governo acene com patacas, e que numa grande cidade, como o Porto, tudo seja conseguido a ferro e fogo em termos de investimento central.
Há muitos países onde a cidade mais importante em termos económicos nem é a capital do país. No entanto, nem defendo isso para Portugal. Defendo um desenvolvimento harmonioso, equilibrado, onde as pessoas não sejam desenraizadas, onde se promova uma competição saudável entre dois grandes pólos urbanos nacionais: o Porto e Lisboa, onde não se deixe metade do país no mais completo e total abandono. Experimentem ir por exemplo, uns dias ao distrito de Portalegre. Vejam o estado de abandono, de esquecimento, de tristeza em que se encontra aquela região. E de Norte a Sul do país o interior está assim.

Para quando um Portugal equilibrado, coeso, justo, solidário e com qualidade de vida para todos?

Links vários sobre os investimentos que referi em cima:
(imagem retirada de wehavekaosinthegarden.blogspot.com)

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